Hoje, enquanto sonolentamente caminhava pela rua, eu o vi. Estava só e me olhava sorrateiro, de canto de olho, do outro lado da rua. Me acompanhou por uma ou duas quadras até que nossos caminhos, mais uma vez tomaram sentidos opostos.
Pareceu-me triste e pensativo. Talvez ande muito sozinho, pois sempre quando notado é recebido com maus olhos, com desespero, tudo em nome da estética. Não discordo que sua presença provoca sempre mudanças significativas. Para uns pra pior; para outros nem tanto assim. Não sei como o receberei quando se dispuser em minha frente. Por hora apenas nos espiamos e seguimos nossos caminhos. Contudo, acredito que nos daremos bem. Boas conversas trocaremos, até porque não me restará mais nada senão conversar, recordar.
Há quem diga que ele não existe, mas eu o vi. E o vejo sempre no caminhar das pessoas, nos rostos apavorados em sua aparência, que a meu ver não é nada demais. Mas reparo que tudo o que é vivo também o vê e, no entanto, não reage dessa forma. A vida em si se contempla.
Hoje pela manhã eu vi o tempo andando pela rua. O vi agindo, dançando, correndo, acontecendo. E eu o vi vivendo. Eu vivia e ela vigiava. Entretanto, nós dois acontecíamos. Não da maneira mentirosa como os relógios o fazem, ou melhor, tentam inutilmente fazer.
Na verdade, acredito que nos ignoramos mutuamente, afinal ainda não era tempo. Eu vi o tempo quando não era tempo, nem o tempo era eu, pois ainda há tempo, o tempo das árvores, das nuvens, do vento, do árduo caminhar das formigas ao som do canto dos grilos. E sobretudo - alheios a tudo, havia o tempo e eu.
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